Dançar...
Observo todos dançando, e percebo um algo que sai da alma de cada um. Uma energia, uma harmonia, um algo invisivel, mas que se sente e se ver no semblante de cada um. Algo que visivelmente se dissemina no salão.
Pessoas que mal se conhecem, que não sabem muito ou quase nada umas das outras, fazem deslizar os seus pés no chão, os seus braços no ar e a sua alma nos movimentos. Pessoas que se encontram nesse ponto comum: a dança.
Em cada sorriso, em cada contração, em cada olhar, em cada expressão da face, em cada movimento descrito com as mãos, com os braços, com as pernas, com todo o corpo, cada um parece dizer: que bom dançar! Que bom é mostrar a vida que há em mim, dentro da minha alma, às vezes tão deprimida, tão cansada, tão atribulada!... Às vezes, tão solta, tão leve, tão contente, tão feliz!... A vida que pulsa em cada órgão dentro do meu corpo!
Olho e parecem todos voláteis, com ou sem passos perfeitos.
Então, aqui não é mais tão somente um salão de dança, mas um lugar onde cada um, com sua timidez, com sua vergonha e seus receios, com suas alegrias, e suas tristezas, com suas frustrações e suas angústias, com suas preocupações e suas expectativas, com seus sonhos, suas lutas, seus fracassos e suas vitórias, têm na dança um derramar.
E assim sendo, há momentos em que difícil é exatamente dançar, é fazer fluírem os passos, pois o que se sente lá dentro sugere travar os movimentos... A cabeça e o corpo parecem não se harmonizar... E, deste modo, entendemos que nem sempre se fixam os olhos no chão para se vigiarem os pés, para se acompanharem os passos,
mas em razão do que se carrega no peito,
do que se abriga na alma,
do que há na mente.
Sentimentos depositados no fundo do coração,
fatos, acontecimentos diversos guardados na alma.
Movimentos – expressão do que se sente, do que se deseja, do que se vive. Movimentos que carregam a força do que cada um é, do que cada um vive, ou a carência do que cada qual quer, do que cada qual espera, do que cada qual sonha, do que cada qual busca.
Eu precisei de tempo, aliás, de anos, para conseguir fazer o movimento que me levou a estar neste lugar... o movimento para romper com o medo, com a vergonha, com a timidez, com certa falta de confiança em mim, com a ausência de coragem de investir em mim.
No salão, a música invade todos os meus órgãos, reverberando dentro de mim, e o meu ser responde, descrevendo um balé que é único nesse momento de minha vida.
Por um momento, me solto, e as paredes do meu corpo não limitam o que há em mim... Sinto que matéria alguma neste lugar consegue restringir o que flui de mim... Pareço criança!...
E, às vezes, mesmo quando estou tenso(a) e o meu corpo se retrai, enrijecendo os meus músculos, ainda assim, quero sentir o vibrar da música e buscar o curso da dança.
Mais uma vez presto atenção a todos e, por um instante, a alegria contagiante de muitos se mistura... uma leveza se difunde...
Sensações e sentimentos contidos, expostos, às vezes, timidamente, e, às vezes, deflagrados com ímpeto. Tudo denunciando o desejo de extravasar, de provar o gosto da vida, de se sentir e de se mostrar vivo.
Dançar... Gostar de dançar...
Ver-se dançar... Gostar de se ver dançar...
Maravilhoso Deus que nos concede o imenso privilégio de ouvir a música e vivê-la nos movimentos da dança... seja em um movimento ou em outro, momentos esses dos quais, Ele, também é Senhor. Maravilhoso Deus da vida!
(Emília Maria Matias Acioli – João Pessoa/PB – 06/05/2006)